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Rhapsody in Blue foi composta há 100 anos

Célebre pelo glissando de clarinete que a inicia, a icónica peça musical Rhapsody in Blue cumpre este ano o seu primeiro centenário. Composta em Janeiro de 1924 por George Gershwin (1898-1937), estreou em Fevereiro do mesmo ano no Aeolian Hall, em Nova Iorque, evento a que assistiu o compositor Sergei Rachmaninoff.

 

Combinando a música erudita com reminiscências sonoras do jazz, na sua origem esteve o polémico, mas bem-sucedido, Paul Whiteman (1890-1967), músico cuja orquestra marcou os loucos anos 20. Lenda ou não, reza a história que George Gershwin se esqueceu da encomenda que recebera do autodenominado “rei” do jazz. De facto, seria recordado da mesma pelo irmão, que lera num jornal que Whiteman anunciava para breve um concerto preenchido por obras de vários compositores contemporâneos, incluindo um concerto de jazz que George Gershwin estaria já a compor.

 

A cinco semanas da estreia, iniciou-se, assim, o processo de composição. Curiosamente, a escrita do tema principal ocorreu a bordo do comboio em que Gershwin viajou rumo a Boston para assistir à estreia de uma outra composição da sua autoria. Como o próprio recordaria anos mais tarde, “foi no comboio, com os seus ritmos de aço, que de repente ouvi – e até vi no papel – a construção completa da Rapsódia, do começo ao fim…”. Nessa mesma ocasião, Gershwin diria ainda que sentiu a peça “como uma espécie de caleidoscópio musical da América – do nosso vasto caldeirão cultural, da nossa vitalidade nacional […], da nossa loucura metropolitana. Quando cheguei a Boston, já tinha o enredo da peça definido”.

 

Seria Ferde Grofé (1892-1972), então arranjador musical de Paul Whiteman, a assinar a orquestração da peça. À data da estreia, faltava, contudo, escrever o solo de piano, que George Gershwin tocou de memória. A obra completa ficaria escrita apenas em 1926, sendo apresentada em 1930 no filme King of Jazz, protagonizado por Paul Whiteman. Quanto à autoria do título da peça, que esteve inicialmente para ser designada American Rhapsody, terá cabido igualmente ao irmão de George Gershwin, o letrista Ira Gershwin. A sua origem é, contudo, puramente circunstancial, resultando do facto de aquele ter assistido a uma exposição de pintura de James McNeill Whistler, na qual se incluía a tela Nocturne: Blue and Gold—Old Battersea Bridge.

 

Em Portugal, Rhapsody in blue tem sido tocada abundantemente ao longo dos anos. A estreia remonta a Janeiro de 1937, tendo ocorrido no teatro São Luiz, em Lisboa, pelas mãos de Marie Antoinette Lévêque de Freitas Branco (1903-1986), pianista francesa que, curiosamente, chegou a Portugal em 1924. A acompanhá-la esteve a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida pelo marido, o maestro Pedro de Freitas Branco (1896-1963). Referindo-se a esse concerto, a crítica musical e compositora Francine Benoît (1894-1990) escreveria no Diário de Lisboa que “a virtuosidade destrambelhada, os efeitos cómicos dos metais engasgados de propósito, e o sentimentalismo fácil dos saxofones só podem ser aceites e ter a sua indubitável graça valorizada num ambiente apropriado (se os empresários querem indemnizar os virtuosos ou se estes crescem e proliferam em consequência da cultura física «à outrance»)”.