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Espectáculo Tudo Isto É Jazz celebra centenário de Luís Villas-Boas e do primeiro concerto de jazz em Portugal

No dia 9 de Fevereiro, pelas 21h00, o Centro Cultural de Belém acolhe o espectáculo Tudo Isto é Jazz!, uma ideia original de João Moreira dos Santos com encenação de Carlos Antunes e guião dramatúrgico de Fernando Villas-Boas. Promovido pela Égide, em colaboração com o Hot Clube de Portugal, o evento foi concebido para celebrar um duplo centenário assinalado em 2024: o nascimento de Luís Villas-Boas (1924-1999) – considerado o “pai” do jazz em Portugal – e o primeiro concerto de jazz efectuado no país por um grupo estrangeiro, a Pan-American Ragtime Band, ocorrido em 1924 no Teatro da Trindade, em Lisboa.

 

Numa inédita combinação de teatro e música, sobem ao palco do pequeno auditório o actor João Lagarto, que encarna a figura de Luís Villas-Boas, a Orquestra do Hot Clube de Portugal, dirigida por Pedro Moreira, e ainda diversos músicos convidados, incluindo as cantoras Maria João, Rita Maria e Sofia Hoffmann, Ricardo Toscano (saxofone), Laurent Filipe (trompete), Jorge Costa Pinto (maestro), António José de Barros Veloso (piano), Rão Kyao (flauta), Zé Eduardo (contrabaixo) e Gonçalo Sousa (harmónica). Globalmente, estão representadas três gerações de músicos de jazz portugueses, cujas idades oscilam entre os 20 e os 90 anos.

 

Conceptualmente, Tudo Isto é Jazz! propõe ao público uma viagem dupla que se entrecruza. Musicalmente, narra-se a progressão estética do jazz ao longo do século XX. Para tal, a Orquestra do Hot Clube de Portugal desdobra-se em diversos grupos, de trios a nonetos, ilustrando assim os diferentes estilos jazzísticos que foram emergindo durante o referido período – desde o ragtime e o swing das grandes orquestras das décadas de 1930 e 1940 até ao bebop, a bossa nova e o jazz-rock –, mas também a produção artística dos primeiros músicos portugueses que se profissionalizaram no jazz ou contribuíram decisivamente para a sua institucionalização. Teatralmente, João Lagarto dá a conhecer o percurso e o legado de Luís Villas-Boas, figura carismática e polémica que representa em palco, passando pelo seu apaixonamento pelo jazz durante a adolescência, a fundação do Hot Clube de Portugal e do Cascais Jazz, e as muitas histórias caricatas que viveu ao longo de mais de cinquenta anos de dedicação este género musical até, a partir da década de 1990, ser afectado pela doença de Alzheimer, vindo a falecer em 1999.

 

As chamadas jazzofobias, protagonizadas nas décadas de 1920 a 1940 por diversos sectores da sociedade, incluindo o escritor Ferreira de Castro, logo em 1924, merecem especial destaque em palco, convidando os espectadores a reflectir sobre um período e regime político em que a dignidade humana não abrangia todos por igual.

 

Segundo João Moreira dos Santos, autor de diversos livros sobre a história do jazz em Portugal e do programa radiofónico Jazz A2 (Antena 2), «este é o primeiro espectáculo do género realizado no país, o primeiro musical dedicado ao jazz, tendo sido bastante desafiador de montar. Ao mesmo tempo, é para mim uma honra poder colocar em palco a comemoração do centenário do nascimento de Luís Villas-Boas – a quem devemos praticamente tudo na afirmação e no desenvolvimento do jazz em Portugal – e do primeiro concerto realizado no país por um grupo de jazz estrangeiro, ocorrido também em 1924, como descobri recentemente na pesquisa para o livro que estou a escrever sobre a história dos primeiros 100 anos de jazz em Portugal. Curiosamente, as receitas da série de espectáculos protagonizados pela Pan-American Ragtime Band serviram, parcialmente, para financiar a travessia aérea Lisboa-Macau, empreendida nesse mesmo ano pelos aviadores Sarmento de Beires e Brito Pais». Na sua opinião, «numa época em que os sistemas democráticos se vêm perigosamente ameaçados, é importante afirmar, celebrar e honrar o jazz, que é, e sempre foi, uma música de liberdade, diálogo e inclusão. E é importante, também, mostrar ao país que é possível sonhar, pois legitimar e institucionalizar o jazz em Portugal nos últimos 100 anos, sobretudo durante o período do Estado Novo, exigiu muita inteligência, paixão, associativismo e determinação por parte de figuras pioneiras como Villas-Boas e de tantos outros que não ficaram até agora na história cultural do país».

 

João Lagarto nota que «Jazz é liberdade; criar uma personagem também. Mas quando a personagem é alguém que existiu as coisas complicam-se. Fazer de Luís Villas-Boas, figura maior da divulgação e criação do jazz em Portugal, para uma plateia onde ainda estarão presentes pessoas que o conheceram, e comemorando, em diálogo com um notável grupo de músicos, o centenário do jazz em Portugal e o de Luis Villas-Boas, está a ser uma alegria. Coisa que o jazz também é. Em comum com Villas-Boas, tenho a barriga, o bigode que, entretanto, comecei a deixar crescer e o amor pelo jazz. De cada vez que represento alguém que existiu, tenho a sensação de estar a ser observado, pelo próprio (!), por testemunhas, pela história. Espero que o Luís Villas-Boas goste».
Fernando Villas-Boas, autor do guião dramático do espectáculo considera que «o homem que chorou por um piano destruído ou que se riu de ser vaiado na apresentação de uma banda de jazz, por não querer calar o seu entusiasmo, soube sempre transformar cada adversidade em ocasiões de festa, gozo musical e contacto humano. Luís Villas-Boas contribuiu em muito para liberdade em Portugal: sindical, cívica… e musical. A liberdade de expressão foi o tema da sua vida, e o Jazz foi sempre o seu guia nessa busca, que tantas vezes terá parecido impossível. Com bonomia, o Villas foi sempre abrindo caminhos, desse por onde desse. Cabe aqui o retrato do próprio: “o Villas é aquela máquina, assim um bocado a puxar ao rude, assim da pesada, e tal… e está bem, pronto! É uma imagem! Não me importo nada, sou assim, sou polémico, sou um gajo pra frente e não sei quê. Pronto. Enquanto tiver genica… vou continuar assim: rude e polémico, etc. A coisa funciona».

Na tarde deste espectáculo, também por iniciativa da Égide, decorre no CCB, na sala Luís de Freitas Branco, uma sessão didáctica que inclui (1) uma mesa-redonda sobre os 100 anos de jazz em Portugal, (2) a actuação de um sexteto que recria a música tocada em Lisboa, em 1927, pela primeira jazz-band norte americana a visitar o país, (3) a estreia do documentário Luís Villas-Boas, a Última Viagem, da realizado por Laurent Filipe, (4) a apresentação do livro Luís Villas-Boas: o Pai do Jazz em Portugal, de João Moreira dos Santos, e (5) uma pequena exposição de pintura do artista plástico XicoFran, subordinada ao tema 100 Anos de Jazz em Portugal.